2 de nov de 2016

Minha cama

Postado por Anna Laura às 17:49

Minha família se mudou uma vez durante os meus 25 anos de vida. Vivíamos em um apartamento e no auge dos meus 5 anos nos mudamos para a casa onde vivemos até hoje. Minha mãe conta que achei a ideia maravilhosa: estava empolgada, ansiosa com as novidades. Mas, na hora de dormir, soltei a frase: 

- Quero ir dormir na minha cama.

Minha mãe, rapidamente, respondeu:

- Mas ela está aqui, no seu novo quarto.

Ao que eu retruquei:

- Não! Quero minha cama, meu quarto! É hora de dormir! É hora de voltar!

Não lembro desse momento, mas obviamente me acostumei com a ideia de ver minha família morando em outro lugar. Acho que a possibilidade de ter um jardim me conquistou.

Anos se passaram e no auge dos meus 25 anos, após ter vivido quase 1 ano e meio com o meu namorado em um apartamento (super) pequeno no Centro Histórico de Porto Alegre, me via novamente em frente a uma mudança: íamos nos mudar para um novo apartamento, ainda na capital, mas no bairro Partenon. Demorei para lembrar da situação que vivi há 20 anos. Acho que quando somos adultos costumamos ter a falsa impressão que nada vai nos assustar, nada vai nos dar medo, nada vai abalar nossa coragem de encarar qualquer mudança. Grande engano. Continuo sentindo medo e dessa vez não foi diferente.

A perspectiva de um novo apartamento, de novos hábitos, me deixou apavorada. Eu e meu namorado, acredite. O passo de ir a Porto Alegre foi difícil, mas nunca imaginei que essa mudança seria tão complicada. Primeiro o sentimento era de stress: encarar a escolha de um novo apartamento, uma mudança, as vistorias com a imobiliária, ligar luz, desligar luz... ninguém me avisou que é tão difícil ser adulto.

Com tudo resolvido, era hora da mudança. Não participei do processo de levar todos os móveis (a soma do que cada uma das mães enviou para nós), pois precisava trabalhar em Arroio do Meio. Mas não resisti: no sábado, após 2 dias estressantes que meu namorado encarou sozinho, fui até o Centro Histórico de Porto Alegre me encontrar com ele para finalizarmos a limpeza do apartamento alugado e irmos em direção ao apartamento do Partenon. Maior, mais seguro, mais bonito. Era claro e óbvio que a mudança era o certo a fazer. 

Então foi fácil sair do apartamento antigo? Não, nem um pouco.

Lá foi o primeiro lugar que compartilhei com alguém que não fosse minha família. Foi lá que descobrimos que nosso amor era realmente muito grande (afinal, se acostumar com as manhas e manias da pessoa amada dia após dia não é fácil). Foi lá que criamos nossos hábitos, nossas manhas e manias como casal. Cada espaço do chão e das paredes nos faziam lembrar algo. 

Então ficamos ali sentados, no chão da sala agora vazia e cheia de eco, relembrando os bons momentos e os que pareciam péssimos quando aconteceram. Como esquecer quando o trinque da porta ficou na mão? A quantidade de vezes que o ralo da cozinha/lavanderia entupiu ou o vento frio que entrava pela janela do banheiro? Mas, até esses momentos de perrengue, faziam a saudade antecipada doer. Choramos, com medo de perder tudo o que construímos ali, com medo de encarar outro desafio, medo de virar a página, de mudar de capítulo. Até a hora de fechar a porta foi difícil: era impossível não lembrar quando arranquei o cartaz de "aluga-se" dela.

Saímos com uma difícil despedida do porteiro mais querido, Seu Lutero, que foi até presenteado com uma doce caixa de bombons. Contar com ele nas tantas semanas que começávamos a encarar Porto Alegre foi um alívio. Já no táxi, entre baldes, rodos e vassouras, meu coração apertou ainda mais. Era o fim, de fato. A partir dali o meu endereço era outro, meu destino era outro, o capítulo era outro.

Chegando no apartamento novo, com muita coisa para arrumar e limpar, apenas olhei para o meu namorado e disse: "ok, gostei, mas quero ir dormir na minha cama."


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